Uso incorreto do celular pode provocar danos no pescoço e na coluna
Utilizar o aparelho com o pescoço inclinado para baixo sobrecarrega o corpo e provoca estresse na região cervical, além de causar danos à visão. Crianças e jovens são os mais afetados por conta também de longas horas na internet
Responder às mensagens no WhatsApp, abrir notificações no Facebook, conferir os e-mails recebidos, ver as fotos que chegam… Apesar de tão rotineiros, esses passos - e outros mais - repetidos várias vezes ao dia, quando se pega o celular, têm provocado problemas para a saúde do nosso corpo, como a síndrome do text neck.
Causado pela postura inclinada da cabeça durante o uso de aparelhos telefônicos, o novo termo citado nos consultórios ortopédicos faz uma associação entre as palavras texto e pescoço, alertando sobre os malefícios aos ossos dessa área, decorrentes, principalmente, do hábito de digitar em celular.
O fisioterapeuta Guilherme Couto, especialista em coluna, pescoço e extremidades, explica como surgem as dores do text neck. “Quando mantemos essa postura errada durante um tempo prolongado, acabamos gerando um estresse mecânico que leva a lesões teciduais locais e podem provocar dores na região cervical, nos membros superiores - braços e mãos - ou cabeça, trazendo enxaqueca”, detalha.
O problema pode atingir todos, já que são raras as pessoas que elevam o celular à altura dos olhos para não prejudicar o pescoço. Porém, entre crianças e adolescentes a síndrome é ainda mais impactante, pois nessas fases da vida a coluna ainda está em desenvolvimento e cartilagens ocupam o lugar dos ossos. Para fugir do text neck, a solução é simples, ensina Guilherme. “O que pode ser feito para evitar esses sintomas é buscar se manter em movimento, deixar sua articulação livre, praticar atividade física e sempre buscar uma postura mais ereta quando fizer uso do celular ou tablet.”
Média preocupante
Segundo pesquisa da GlobalWebIndex, o Brasil é o terceiro país do mundo que mais dedica horas do seu dia ao celular: são 3h14min por dia conectados. Entre os jovens, o número cresce para 4h diárias, chegando a 1.460 horas por ano com o celular nas mãos em posturas muitas vezes incorreta.
Três perguntas para...
Edson Pudles, presidente do Comitê de Coluna da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia
1) Para aqueles que têm os aparelhos telefônicos como instrumento de trabalho, como diminuir os efeitos do text neck sem abrir mão de tempo no dia para o uso do celular?
Nestes casos, a recomendação é que a pessoa trabalhe com o celular em uma posição mais alta para evitar que o pescoço fique em flexão. Devemos lembrar que a cabeça tem um peso, e quanto maior a flexão do pescoço, maior será a tensão da musculatura na região posterior do pescoço. Outra recomendação importante é que a pessoa faça intervalos e durante esse período pratique alguns alongamentos. Muitos aparelhos têm o recurso de transformar o ditado em texto, o que pode ser um grande auxiliar e evita a flexão prolongada do pescoço.
2) Qual a postura corporal mais adequada para evitar dores durante o uso do celular, leituras e posicionamento em frente ao computador?
A postura mais adequada sempre será a mais ergonômica. No caso de uso do computador, o monitor deve ficar em uma linha de horizontal com os olhos, e não esquecer de ficar com os antebraços apoiados e joelhos fletidos em 90°. O mesmo deve ser observado ao ler um livro. Melhor sempre sentado e confortável, não deitado.
3) Quais são os tratamentos ortopédicos mais comuns em quem sente os efeitos do text neck?
Pacientes com queixas maiores e na fase aguda são tratados com medicamentos (relaxantes musculares e analgésicos) e calor local. O mais importante é tratar a causa, e não o sintoma. Por esse motivo, exercícios regulares, pausas durante o período de atividade e principalmente manter a postura correta são o ideal.
Doença cresce no mundo moderno
Pesquisa do Centro de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) - TIC Kids On-line - revela que cerca de 69% das crianças e adolescentes do Brasil, na faixa dos 9 aos 17 anos, utilizam a internet mais de uma vez por dia. No Centro-Oeste, o índice ultrapassa a média brasileira e chega a 74% - é a região em que as crianças estão mais conectadas, ao lado do Sudeste, segundo o estudo.
Os dados confirmam o crescente acesso dos brasileiros aos benefícios da tecnologia, mas, ao mesmo tempo, desvendam uma nova preocupação: as ferramentas eletrônicas estão contribuindo para o aumento da miopia entre os pequenos. “É uma tendência do mundo moderno”, alerta o oftalmologista Luiz Felipe Diniz, do Hospital Brasileiro de Olhos (HBO), em Brasília.
Cerca de 20% das crianças em idade escolar, de acordo com levantamentos do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), apresentam problemas de vista. A miopia é a campeã e já é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a epidemia do século. O uso de celulares e computadores por mais de seis horas diárias, segundo Diniz, pode levar ao agravamento dessa patologia em crianças e adolescentes.
Lucas Macedo, de 9 anos, sente na pele, ou melhor, nos olhos, os efeitos da tecnologia. Vidrado em smartphone, tablet e afins, ele usa óculos desde os 6. A mãe do menino, a fisioterapeuta Juliana Macedo, de 40, acredita que a internet atrapalhe muito. “Se deixar, as crianças ficam além da conta na frente da tela do computador e no celular. Acho que forçam demais os olhos.”


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