“Ela é muito especial, capaz de tudo”



Elisabete Carrara é fonoaudióloga e mãe da Gabriela, de 13 anos, portadora da Síndrome de Down. No Dia Internacional da Síndrome de Down, comemorado em 21 de março, ela contou ao Yahoo Notícias um pouco mais sobre como é ser mãe da Gabi, as relações delas com o mundo e também com o pessoal portador do que a Bete chama de ‘Síndrome do Normal’.

Leia o depoimento:
“A Gabriela tem 13 anos, fazendo 14 mês que vem. Acho que no início, tanto o diagnóstico, e o meu foi intra-útero, quanto o nascimento foram duros. Por dois aspectos: um é aquele que você sonha com uma criança ‘típica’ e quando você vê que sua criança vai ter outras características da que você sonhou… Tem um texto muito bonito que você planeja fazer uma viagem para a Itália. Então sonha com a comida de lá, a língua de lá, as cidades, Roma, etc e… De repente você desembarca na Holanda. E até você descobrir as petúnias da Holanda, que ela tem suas belezas, você passa por um processo de entender que você não chegou na Itália, que você está em outro lugar.
Então existe esse lado que é um processo de você ter o filho com a Síndrome de Down, um filho diferente do normal, da ‘Síndrome de Normal’, como eu costumo brincar. Mas tem um outro lado que existe… Há 13 anos existia uma falta de informação, hoje eu acho que não. Mas acredito que vá além disso. É um foco errado de informação. Então a informação acaba sendo focada no ‘menos’, no que não tem, no que é alterado. E nunca nas possibilidades que essas crianças têm, que são inúmeras, praticamente as mesmas das crianças que têm ‘Síndrome de Normal’.
Então esse primeiro diagnóstico, essas primeiras informações e sensações, elas são pesadas. Mas não precisava ser assim, ainda é feito de uma forma muito cruel o anúncio, o diagnóstico. No nascimento da Gabi só faltou me dar os pêsames porque ela tinha nascido, algo sem o menor sentido. Mas aí a Gabriela foi crescendo. Ela teve uma cardiopatia muito grave, precisou operar, mas graças a Deus foi tudo bem — de novo contrariando tudo que os médicos falaram. Aí no desenvolvimento você vai vendo, olhando de cima, que é igual. Ela precisa só de mais estímulos, mais repetições. É claro que nós temos condições, isso não é algo que acontece com todo mundo, mas ela se desenvolveu super bem e além dos estímulos, das repetições, o médico dela sempre falou muito nas oportunidades.


Dar as oportunidades significa acreditar que eles são capazes. Então a gente sempre acreditou que a Gabriela era possível de tudo, que ela era capaz de tudo. Meu marido sempre fez questão de soltar ela pro mundo. As vezes a gente fica super protegendo, com medo do que ouvimos, mas a Gabi sempre foi super inteligente, tem um humor gigante, uma capacidade enorme de perceber as coisas. Então a gente sempre tentou justamente não ter o olhar do preconceito. Se eu não vou acreditar que ela pode, como vou cobrar que o mundo acredite que ela pode? Então sempre repetimos para ela: ‘Você pode, vai, vai vai!’. E agora ela está no nono ano, em um colégio dito forte em São Paulo, o Dante Alighieri. E ela acompanha, está sempre super envolvida na classe, amada pelos colegas, esteve em um acampamento de três dias com todos os nonos anos recentemente. Há claro um processo de adaptação, a escola inclusive faz um trabalho muito legal. Mas o que eu vejo é que ela só é diferente como eu também sou diferente de todas as outras pessoas, como eu sou diferente de vocês. Essa é a Gabi.
E ser mãe da Gabi… Na verdade, existem várias mães que ficam irritadas quando alguém fala que a criança com Síndrome de Down é especial, que elas são crianças amorosas… Na verdade elas por um lado estão certas, porque não deixa de ser um certo preconceito, né? Achar que todos os Downs são amorosos, que todos os Downs são isso e isso não é verdade, toda criança é diferente. Se um Down não crescer sendo tratado com amor ele não vai ser amoroso. Eu tenho três filhos e cada um eu tenho como extremamente especial. A parte especial da Gabriela pra mim é a falta de pressa, a falta de julgamento, a falta de crítica, a mente dela é muito mais leve para encarar os desafios da vida. A capacidade de amar dela é muito pura, justamente por não ter esse controle da mente tão grande quanto nós, pessoas com ‘Síndrome de Normal’, temos.

É muita alegria, gratidão. A Gabi valoriza muito o os outros fazem por ela, porque ela sabe das limitações dela. É a coisa mais linda da vida. Em vários aspectos, então, como é com meus outros filhos, ela é uma grande mestra minha. Aquela história de quem ensina quem, sabe? Ela me ensina coisas cada vez mais importantes, muito mais importantes do que eu ensino pra ela. Ela é um presente, não consigo imaginar minha vida sem ela e acho que, sei lá, se tivesse uma mensagem pra eu dar… Obviamente existe a personalidade dela, a genética dela, mas existe muito, como para qualquer criança, o nosso olhar. O olhar dos pais. A Gabi é muito especial, assim como meus outros filhos, e ela é capaz de tudo. E nós não medimos esforços para que ela realize tudo que quiser realizar nessa vida”.



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